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“Decálogo do concorrente habitual (e provavelmente ultramarino)”

Fernando Iwasaki Cauti nasceu em Lima, Peru, a 5 de junho de 1961, e reside em Sevilha, Espanha. Investigador, professor, historiador e escritor, ocupou inúmeros cargos na gestão cultural, incluindo diretor de diversas fundações.
Também foi colunista do Diario de Sevilla, El Mundo e La Razón na Espanha, El Mercurio no Chile e El Milenio no México.
O seu decálogo, intitulado “Decálogo do concorrente habitual (e provavelmente ultramarino)” foi extraído do livro “Espanha, retire esses prémios de mim” (2009) e é uma mordaz crítica aos prémios literários!
1. As histórias que envias para concursos nunca serão importantes para a história da literatura. Nem mesmo pela literatura, na verdade.
2. Assina sempre com pseudónimos femininos. São sugestivos, nunca explícitos. A modéstia atrai mais.
3. Escreve uma história que seja como uma “célula-tronco” literária que possas clonar para cada concurso. Não te preocupes. Os clones são sempre melhores do que o original.
4. Descreve cenas rurais quando o prémio é convocado por uma grande cidade (cabras esculpindo aspidistras em Barcelona, ​​papoulas na Castellana de Madrid ou quintas de leite no centro de Valência), mas cria uma atmosfera cosmopolita quando o concurso é na cidade (Baixa de Higuera de la Sierra, os vernisages de Manzaneda de Omaña ou a deliciosa Dry Martinide (os pubs de Guarromán).
5. Templários não trabalham em histórias. Apenas em romances. Não te enganes sobre os prémios.
6. Se os teus personagens se vão divorciar, certifica-te de que o divórcio já ocorreu antes da história começar. As pessoas já estão a passar por um momento muito difícil, então tu escreves sobre esses problemas. Além disso, quatro em cada cinco júris de prémios literários são divorciados ou têm vida curta.
7. A identidade nacional é muito importante. Não a tua, mas o do município, do ateneu ou do caixa de poupança que anuncia o prémio. Na dúvida, escreve sobre Nova York. Nunca falha.
8. Não tentes impressionar ninguém, pois todos os jurados leram Joyce, Mann, Faulkner, Proust e Nabokov. Ultimamente, também estão a ler Paul Auster. Porém, se quiseres parecer-lhes um marciano, cita Jardiel, Conqueiro, Camba e Wenceslao. Em algum destes há tensão!
 
9. Embora seja verdade que o propósito da literatura não é dizer a verdade, mas narrar algo plausível, a vida quotidiana está repleta de muitos eventos implausíveis sobre os quais ninguém deseja escrever para não parecer oligofrénico. Não deixes que a coerência da ficção te impeça de narrar a realidade grotesca.
10. Na hora de concorrer, lembre-se sempre das palavras do velho Groucho: “Os grandes sucessos são obtidos em livros de receitas, volumes de teologia, manuais de “como fazer …” e geladeiras da Guerra Civil”.
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