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O que deve evitar-se na literatura, segundo Jorge Luis Borges

JORGE LUIS BORGES (1899-1986) é um dos grandes escritores argentinos e universais do século XX, mestre do conto e ilustre pensador com uma obra enorme. Cego desde os 55 anos, foi-lhe negado o Prémio Nobel por razões políticas.
Adolfo Bioy Casares, da revista francesa L’Herne, disse que Borges e Silvina Ocampo planeavam escrever uma história de a seis mãos, passada em França, e cujo protagonista teria sido um jovem escritor da província. A história nunca foi escrita, mas desse esboço fica algo que pertence ao próprio Borges: uma lista irónica de dezasseis conselhos do que um escritor nunca deve colocar em seus livros.
Na literatura, é necessário evitar:
 
1. Interpretações excessivamente não conformistas de obras ou pessoas famosas. Por exemplo, descreva a misoginia de Don Juan, etc.
 
2. Os pares de personagens totalmente diferentes ou contraditórios, como Don Quixote e Sancho Panza, Sherlock Holmes e Watson.
 
3. O costume de caracterizar personagens por suas manias, como Dickens faz, por exemplo.
 
4. No desenvolvimento da trama, recorrer a jogos extravagantes com o tempo ou o espaço, como fazem Faulkner, Borges e Bioy Casares.
 
5. Na poesia, situações ou personagens com os quais o leitor pode se identificar.
 
6. Personagens passíveis de se tornarem mitos.
 
7. Frases e cenas intencionalmente vinculadas a um determinado lugar ou um determinado tempo; ou seja, o ambiente local.
 
8. A enumeração caótica.
 
9. Metáforas em geral e metáforas visuais em particular. Mais especificamente ainda, metáforas agrícolas, navais ou bancárias. Exemplo absolutamente desaconselhável: Proust.
 
10. Antropomorfismo.
 
11. A produção de romances cujo enredo lembra outro livro. Por exemplo, Ulisses de Joyce e Odisseia de Homero.
 
12. Escreva livros que se pareçam com menus, álbuns, itinerários ou concertos.
 
13. Tudo o que possa ser ilustrado. Qualquer coisa que a ideia de ser transformado em filme possa sugerir.
 
14. Nos ensaios críticos, qualquer referência histórica ou biográfica. Deve evitar-se sempre alusões à personalidade ou vida privada dos autores estudados. Acima de tudo, evitar a psicanálise.
 
15. Cenas domésticas em romances policiais; cenas dramáticas em diálogos filosóficos.
 
E finalmente:
 
16 Evitar a vaidade, a modéstia, a pedofilia, a ausência de pedofilia, o suicídio.
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