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Ainda e sempre a leitura

[Opinião]

A leitura começa na 1.ª Infância…

É essencial que se leia, que a leitura seja um ato normal do dia a dia, nem que seja rótulos de garrafas ou embalagens ou as placas de sinalização das estradas (ótimo para os mais pequeninos que entraram para a escola e que começam a tentar formar as primeiras palavras!) ou o próprio jornal (as letras grandes, como toda a gente costuma dizer, referindo-se aos títulos das notícias e reportagens), nem que seja a Bola.

É que mais vale que os alunos leiam as notícias sobre os seus clubes favoritos e sobre elas dialoguem do que nada. Não nos vamos enganar sobre o papel da escola. Aqui nada se faz que não tenha sido fomentado em casa, ou seja, se o terreno tiver sido preparado, a escola poderá colocar a semente da leitura e fazer com que ela germine, produzindo uma bela flor perfumada.

Para a leitura, assim como para tudo o que é importante na vida de um jovem, a família está na base. Não nos podemos esquecer que os jovens passam efetivamente muito tempo na escola (demasiado!), mas a maior parte das 24 horas do dia é passada fora dos muros do estabelecimento de ensino, se bem que, infelizmente, na maioria dos casos não em casa. E mesmo quando no aconchego do lar quantas vezes os jovens estão sozinhos tendo apenas por companhia a televisão, a play station e o computador! Que esperar desta combinação explosiva? Os próprios pais, à noite, já não leem para as crianças. Põem-nas a ver vídeos com as histórias (é tão mais fácil!) que lhes deveriam ler. Tempo perdido que nunca mais se recuperará, ocasião perdida que os pais não voltarão a ter para estabelecerem essa relação tão especial com os filhos.

O contacto com a leitura nos primeiros anos de vida está a perder-se, fruto desta sociedade consumista e trepidante, não admira que a leitura também tenha desaparecido. Para aprender, a criança tem de copiar o adulto e se este não lhe lê histórias e não lê, então não está a fornecer o modelo para ele imitar. O tocar os livros é essencial para que a criança se torne leitora. Ela tem de mexer, de riscar, de saborear o livro- a boca é um dos primeiros grandes exploradores que a criança utiliza na descoberta e perceção do mundo que a rodeia.

Os três anos, idade em que a criança entra para o Jardim de Infância, podem já ser tardios para o contacto com um contador de histórias- a educadora. É que quando a história se conta, ela intervém permanentemente, ela interage constantemente com o adulto, normalmente com «não é assim», «e depois?». Expectativas criadas, ela sabe que a espera uma hora em que poderá dar asas à sua imaginação, o que não acontece com os filmes em que tudo lhe é dado de bandeja, sem esforço. E há muitas crianças que não param quietas durante a sua projeção, precisamente porque a sua participação lhes foi coartada.

Não admira, pois, que jovens mais crescidos, a sociedade do pronto-a-consumir sem esforço, sinta dificuldade em imaginar o que quer que seja. Eles não foram ensinados porque se deu preferência ao facilitismo. E a cumplicidade que se cria entre a criança e o pai e/ou a mãe na hora da história? Não há momento melhor na vida do que aquele em que nós somos os deuses, os melhores, ao desempenharmos um papel que mais nenhuma pessoa pode desempenhar.

Esta será a tal semente que cada um de nós poderá semear para mais tarde poder ver a planta desabrochar. Quando o terreno não é cuidadosamente preparado, adubado, regado, não se pode esperar que a semente atirada à terra germine. É tudo deixado ao acaso – pode ser que até produza um leitor como pode ser que não dê nada e o jovem seja avesso aos livros e, por acréscimo, à escola.

A falta de perspetivas no futuro dos nossos jovens também pode vir daí – não há livros, não há gosto pela escola, não há interesse em estudar, não… não… uma bola de neve.

Com o lançamento do Plano Nacional de Leitura esperava-se que alguma coisa mudasse e não me refiro às escolas, que responderam em bloco. Mudar mentalidades é o mais difícil, mas espero sinceramente que este Plano de Leitura se vá infiltrando mais e mais até chegar a casa, às conversas em família (repondo-as onde já não existam!), às prendas de aniversário, aos pequenos incentivos que se dão aos jovens. Porquê um CD ou um jogo da Play Station se posso dar um livro? E que tal guardar um pequeno espaço do serão para, em vez de uma série, de um filme, de uma telenovela se fazer a leitura de um capítulo de uma obra, nem que seja aquela que o filho/ a filha tem de ler obrigatoriamente no ano de escolaridade que frequenta? E que tal contar uma história do passado da família e registá-la como um exercício coletivo de escrita em que a interajuda é uma presença permanente? Cimentam-se as raízes do passado, faz-se um ótimo exercício de leitura, de escrita e, principalmente, de cidadania.

Os tempos mudaram… há que acompanhar os tempos e, sem querer parecer saudosista, espero que melhores tempos virão.

Teresa Portal

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